Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

Luto (2)

Para o Rui Costa


Não encontrar palavras. Ou encontrá-las e achá-las imprecisas, vagas, pouco conscientes do seu próprio valor. Um bosque frondoso onde a luz do sol entra apenas em lâminas, feixes sépia entre a folhagem, uma miragem para quem deitado no restolho, sinta na face o intermitente calor de um desses feixes. Ou o inverso. Uma rua europeia cinzenta, o céu pesado iludindo desabar sobre os telhados, e uma chuva fria e impiedosa que não poupa nem os que seguram com dificuldade um chapéu-de-chuva de varetas ferrugentas. Não encontrar o necessário para construir, faltando assim as ferramentas com que construir os prédios interiores da nossa memória; a ampliação de espaço para novas vivências. E tudo é noite. Irresistivelmente noite. Com a solidão definida em todos os gestos; um acender de cigarro, um olhar parabólico e carente, o casaco apertado até ao pescoço, ocultando as feridas invisíveis. Mas tudo se concentra nessa noite, um peito fulminado pela vastidão do escuro, onde respirar ao dobrar uma esquina é acreditar que um episódio aconteça. Mas a vida permanece quase a mesma, tirando os destinos que provocamos na expectativa de, mudando-se de lugar alguns objectos, possa a visão dos dias ser mais arrumada e fácil de se entender. Nunca se fracassa numa procura, apenas a consciência de um erro que imutável teima em cansar o passo estugado. E os anos passam à velocidade dos meses, o pânico de que o tempo é uma batalha inglória. A rua escura e deserta apenas alumiada pelos halos amarelos dos candeeiros. Os trilhos brilhantes e gélidos dos eléctricos que já não passam, e sempre uma chuva mesmo que inexistente a ensopar-nos a pele, a tornar-nos pesados, puxando-nos à terra, ao alçapão que esgueirado em qualquer beco se tornará fatal numa possível queda. Ganhamos amparo. Finge-se. Foge-se. E encontramos amiúde alguém que nos engana deste frio. Aconchegamo-nos numa cama quente que nos parece sempre igual, porque o sono em nada muda, o corpo, se descansa, fá-lo de forma repetida, e as madrugadas, quando ao nosso lado alguém respira profundamente, são imagens de um filme projectadas sem término numa parede. Entendemos o valor de chorar. De simplesmente desistir, a assunção da nossa pequenez. Não secamos as lágrimas. Uma mão que nos toque no rosto se ainda lá estiver. Um corpo que nos absorva se para aí estivermos virados. Tudo ganha finalmente a velocidade do imprevisto, do efémero e consequentemente do que de tão repetido, acaba por perder significado e sentido. E o que nos resta? Uma rua de madrugada onde caminhar, um casaco fechado até ao pescoço, um olhar à calçada húmida, às portadas de uma fachada antiga, às janelas estilhaçadas de um prédio em ruínas, e invariavelmente, a cor debutante de um cigarro a arder entre os dedos, como se gritasse em vez da nossa voz, a comprovar que ainda estamos aqui. Respiramos. Mas só sai fumo, que depressa se desvanece. Também assim o nosso nome.


in Fico Até Tarde Neste Mundo (a editar)