Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Frases Sublinhadas #11

"A felicidade do escritor é o pensamento que se quer transformar totalmente em sensação e a sensação que se quer transformar em pensamento. Um desses pensamentos frementes, uma dessas sensações tão exactas, pertencia e obedecia  então ao solitário: por outras palavras, a natureza estremece de êxtase quando o espírito se inclina em homenagem à beleza. De repente sentia o desejo de escrever."

Thomas Mann - Morte em Veneza

WTF?

Confirma-se tudo o que escrevi no apontamento anterior. Descobri o meu livro em leilão na internet. Qual Berardo a licitar um Picasso.



Apontamentos #72

 
Por diversas vezes falei aqui de holofotes. Os da vida; picos que tão depressa nos iluminam como do mesmo modo nos entregam às sombras. Passagens efémeras de exposição, mas que ainda assim de tão escassas e céleres, deixam a sua marca. Sou cada vez mais evasivo a estes episódios. Ainda este mês recusei (ou na verdade desmarquei) dois concertos. Perdoem-me os bem-intencionados, os amigos, os que apreciam ouvir-me. É difícil entender com total clareza por que razão procedo desta forma. Sem me sentir na obrigação de qualquer justificação, arrumo as ideias comigo próprio. Um concerto de piano obriga-me a várias semanas de trabalho, a um estado de euforia que me desorganiza, a uma tensão que me adoece e a uma descompressão que me compara à condição esgotada de um maratonista. Se gostava que tudo fosse diferente? Talvez não. Tiziano Terzani, em terras orientais, depressa descobriu a ligação que existe entre o nosso corpo e a natureza. Para um ocidental é sempre difícil crer na natureza como um vasto catálogo de símbolos e sinais; como perguntar a um adivinho se as estrelas estão correctas para um casamento ou até mesmo para o local de construção de um aeroporto. Isto para dizer que existe um vasto campo para lá do que julgamos tratar-se do nosso corpo e das potencialidades que esperamos dele. Não está na minha natureza a exposição do que faço a nível artístico. O que componho, o que escrevo, revelo-o ao público que assim o desejar. Está acessível amiúde. Mas o meu corpo, esse, mostra-se uma máquina sem grande aptidão para níveis superiores. À semelhança de diversos escritores, que optam pela clausura total, pelo anonimato social, pela negação a entrevistas, não deixando contudo de escrever, assim me considero enquanto compositor. Agrada-me a imortalidade da música. Uma peça de piano tem o poder de perdurar nos anos. Outros músicos poderão relembrá-la mais tarde. Existe maior necessidade de exposição do que esta? Construir algo com o qual sabemos estar a preencher um pouco da nossa imortalidade? Não há qualquer pedantismo nesta retórica. Do futuro sabemos tanto quanto os adivinhos de Hong Kong, Singapura… Acerta-se uma vez, erram-se outras tantas. Talvez se caia na tentação de que nada valha a pena. Talvez com essa resignação se construa mais e genuinamente do quando se alinha na fileira dos abutres que tentam singrar a todo o custo na ribalta cada vez mais ilusória e transitória. Evocar sabedoria nestas escolhas é um engano. Que se respeitem ambos os campos de batalha. Por mim é cada vez mais acolhedora a sensação de estar fora da engrenagem, já que em tempos fiz dela um estandarte a pilhar, onde acabei por morrer na areia molhada do meu próprio naufrágio. Se as forças se mostram diminutas, ou desfocadas em variadas vertentes que me possibilitam olhar a vida com olhos de espanto e novidade, não vou obrigá-las a outro rumo.

Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

Casal Moderno


Antigamente namorava-se às escondidas dos pais. Hoje namora-se às escondidas dos filhos.

Frases Sublinhadas #10

O que sempre me agradou no budismo é a sua tolerância, a ausência de pecado, a falta daquele peso surdo que nós, ocidentais, trazemos sempre connosco e que no fundo é a cola da nossa civilização: o sentimento de culpa. Nos países budistas não há nada que seja terrivelmente reprovável, ninguém te lança nada à cara, ninguém te faz um sermão nem procura dar-te uma lição.

Tiziano Terzani - Disse-me um Adivinho

Quarta-feira, 16 de Maio de 2012

Frases Sublinhadas #9

A inteligência, o raciocínio, a arte prejudicam o progresso humano, incompatibilizam progresso com felicidade, acabam mesmo por acabar com ambos, porque o ente são deve ser feliz e deve também desenvolver-se. É nas decadências que mais inteligência aparece, mais amor à arte, à beleza, à verdade. É quando o homem começa a amar a verdade que chega a hora dos bárbaros.

Fernando Pessoa - O Mendigo e Outros Contos

Segunda-feira, 14 de Maio de 2012

Mms

Novo Projecto - Meditation I


Quinta-feira, 3 de Maio de 2012

Quinta-feira, 26 de Abril de 2012

PUB

O meu romance A Casa do Esquecimento está disponível na Feira do Livro de Lisboa, no espaço Leya, no pavilhão da Teorema.

Quinta-feira, 19 de Abril de 2012

Apontamentos #71

Bernini - Rapto de Proserpina (detalhe)

Proserpina nem gostava de romãs.
Apenas queria escandalizar a mãe com a cor escarlate ao canto dos lábios.
Deu-lhe assim as chuvas e os ventos e todos os frios dos cantos do mundo.
A Plutão, rogara-lhe que a raptasse enquanto Zeus assinasse o tratado de Deméter,
farta de ser pouco oferecida a comidas.
Foi numa noite de Primavera. Proserpina não tinha agenda, mas sabia que às mãos
invencíveis do amante, jamais molharia os cabelos à chuva.
Plutão, que já ouvia Radiohead, cantou a Exit Music, pedindo-lhe incessantemente:
- Faz ar sofrido, amor. Sabes que Bernini gosta de rostos expressivos.
E se de asas não dispunham, pelos ares magicamente se elevaram, 
deixando a seus pés o ladrar incessante de um cão.

Sexta-feira, 13 de Abril de 2012

#96

Algumas saudades dos meus dezassete anos.

Quinta-feira, 12 de Abril de 2012

Apontamentos #70

Passei a manhã a destruir o meu passado. Com as mudanças de casa, acabei por condensar em duas enormes caixas um espólio dedicado ao esquecimento. Encontrei de tudo; manuscritos desde os meus doze anos, pautas da Academia de Música, testes do secundário, trabalhos de filosofia, cartões, panfletos, pedaços de papel de toalha de restaurante. Fosse a memória um armazém físico, com prateleiras de fórmica, corredores bafientos e mal iluminados, uma cave alheia ao mundo dos vivos, aquele monte de papéis resumir-se-ia apenas a um fragmento recordado de tempos a tempos, sem o peso glorificado dos momentos que valem a pena transportar connosco, esquecido num canto intransitável. Usei o triturador de papel, no qual enfiava três a três folhas como quem lança um albúm de fotografias indesejado para ser consumido pelas chamas atiçadas de uma lareira. Saudosista por natureza (expliquem-me o que isto possa ser), não me doeu nada ver engolidas folhas e folhas com a minha caligrafia de adolescente. Não tive sequer o trabalho de verificar se entre tantos textos algum deles mereceria o ar dos dias. Nada, absolutamente nada. Guardarei apenas os nove cadernos de capa dura cinzenta, a lembrar os livros de actas das conservatórias, iniciados em 1994. Isto porque neles constam alguns dos poemas que viria a editar aos vinte anos, no meu primeiro livro de edição de autor. Não que o restante valha a pena ou nele se encontre uma razão primordial de ser mantido; mas enfim, a existirem raízes do que escrevi, nesses cadernos estarão. O resto acabou. Ao reler A Morte em Veneza de Thomas Mann, deparo-me com a frase de que um escritor deverá ter uma vida longa, para poder escrever com o peso e discernimento típicos de cada estágio da sua existência. Isto implica assumir que uma obra é e será sempre mutável, distante do tom hermético e estanque no qual se parece reconhecer a maturidade de um artista. Não quero cair na tentação de discutir isto. Apenas me assola a certeza de que nunca se atinge a plena certeza do que se é ou quem se é ao escrever. O acto de criação nada evidencia para além de uma janela de tempo, e pensar-se que se regista na linha do tempo um ponto alto do que até então construirmos é lirismo demasiado para o meu entendimento. Kingsley Amis só reconheceu o seu filho como romancista depois deste ter escrito Money. Até então, Martin Amis, que já acumulava distinções desde o seu primeiro romance, aos seus olhos, não passava de um irreverente e imberbe que dedicava o seu tempo a escrever coisas. A não existir um pai escritor, a não existir a pedante ilusão de sermos cada vez maiores a cada frase escrita, só nos resta sermos pais da nossa própria obra. Olhá-la sempre com um desdém de criador, uma atenção redobrada em busca de rasuras. Cedi contudo ao olhar paternalista, ao carinho saudosista por um tempo que já não me pertence, à condescendência pelo que fui e à resignação pelo que julgo ter-me tornado. Apenas tirei uma fotografia a umas pautas antigas, escritas por mim à mão, no delírio estético de ver sons meus registados em papel amarelecido pelo tempo. Mas o que é uma fotografia senão o convite a alentar ainda mais a nossa lareira de Inverno?

Segunda-feira, 9 de Abril de 2012

Sexta-feira, 6 de Abril de 2012

Quinta-feira, 5 de Abril de 2012

Parabéns Sue

Oh I got a feeling
And it's shaking in me now
I don't know the reason why

Oh I got a feeling
And it's burning in me bright
Burns me a hole straight through all of my heart

So I went down to the riverside
And I lay down there for hours

And I jumped into the rivers hands
As it washed away our hearts

And it shines so bright
And helps me to measure when there ain't any light
And it shines so bright
And helps me to measure when there ain't any light

 Patrick Watson - Tracy's Waters

Quarta-feira, 4 de Abril de 2012

Apontamentos #69


Todas as histórias têm um início, pensa o escritor. Terão mesmo, afinal? Supomos da vida uma plataforma oscilante, que nos testa o equilíbrio a todos os momentos; engalanados de fatos acrobáticos a condizer com a destreza necessária para se enfrentar a eminência de queda. Tantas foram as vezes que o escritor se imaginou a cair desse estrado, do alto dos céus carregados, plúmbeos de uma chuva permanente. E essa queda assemelha-se à dos sonhos, terminando num sobressalto final que nos acorda. Respiramos fundo e viramo-nos para o lado. Uma noite o escritor ao virar-se encontrou Sue. (Como podem constatar, esta história não teve início). Perplexo, questionou-se onde estava. Que quarto de janelas abertas sobre a cidade seria aquele, que corpo respirava a seu lado? Sue aninhava-se nele. O braço do escritor sob o seu pescoço a servir-lhe de almofada, as pernas de ambos entrecruzadas numa mistura de calor. Sue falava-lhe docemente. Dizia-lhe frases correctas, prontas a serem lidas em qualquer romance, aprimoradas, sempre num tom de confidência. O escritor olhava o tecto iluminado pela pouca luz da noite que entrava pelas janelas, enquanto a escutava em silêncio. É possível que tenha sorriso, soltado até uma lagrima de uma remota felicidade. Ouvir Sue era como se falasse ele mesmo a ela. Ouvia-a atentamente e concluía que podia ser ele a dizer-lhe tudo aquilo; uma intensa mensagem de entrega, efeitos de carência, assumires de paixão, receios de quem já se projecta no futuro. O escritor pensou que nunca se sabe quando se entra numa nova fase da vida. Ainda ontem parecia entregue a uma solidão que lhe ditava um futuro imutável, e hoje consente que o seu respirar adquira a inconstância dos adolescentes. Explorara em si a magia das várias vidas dentro de uma, e tudo parecia repetir-se, não fossem as palavras de Sue a alertá-lo de que algo era diferente. E Sue? Quem é Sue? Uma personagem enigmática de um romance que escrevera há alguns anos? Ou a mulher de carne e osso que o acariciava e lhe dizia baixinho «tenho saudades do nosso futuro»? O escritor deixou de pensar para melhor sentir. Deixou de ser escritor, de escrever para dentro, para se tornar homem. Um homem é finalmente alguém repleto de erros. Não mais fatos acrobáticos, não mais máscaras simuladoras, não mais escrever o que ainda não se viveu. Desistiu de si por momentos. Há quanto tempo não o fazia? O abandono e a certeza de se estar entregue a algo inquestionavelmente mais forte do que ele? Deixou-se levar. Adormeceu por fim agarrado ainda mais a Sue. Uma mulher que surgira de uma história sem início. E escavou. E foi ao fundo. E por fim, antes de adormecer, deixou-se viver. Não contam os dias, efémeros, enganosos, para o tanto que se pode experienciar com alguém. Recorda como itens diversos episódios que lhe abanam os ombros como se gritassem «Isto não é um sonho! Isto és tu a viver.» O olhar preso no seu rosto enquanto ela conduz pelas ruas da cidade. Patrick Watson a tocar no escuro da garagem, cujas luzes acabariam por se apagar de tão longos os beijos. Elevadores que sobem e descem até ao sétimo andar do prédio, para as mãos se saciarem um pouco mais. Comidas rápidas dentro do Cooper de Sue. «Tens de mandar limpar este carro. É uma pena um carro tão bonito estar assim…» pedia-lhe o escritor, obtendo a difusa resposta «Quando as obras acabarem, amor». Que obras, perguntava-se em silêncio o escritor? As da casa nova? As obras interiores de Sue? As escavações de ambos na edificação de um futuro à prova dos sismos amorosos? Nunca imunes ao lixo, pensou. Mas logo a vaga mágica de esquecimento lhe toldava as dúvidas com novos episódios. Escolher cadeiras retro para a nova sala, numa mezzanine onde ninguém os via, e onde se beijaram de novo. Urgência. Toda a urgência batida nos poemas vigorava neles como uma sentença: “Não troces de quem deseja.” Se uma história sem início se insurge tão profícua de acontecimentos, para quê forçar-lhe um final? O escritor volta a recordar a plataforma balouçante da vida, olha para baixo para medir a distância de queda, mas desta vez não se encontra num sonho nem sequer sozinho. Sue agarra-lhe uma mão e pergunta: «Quantas luzes de presença achas que devo colocar neste chão?» O escritor queria responder-lhe nenhuma, associando o corredor a uma pista de aterragem nocturna. Mas depois reflectiu melhor e acabou por dizer: «Todas as que conseguires. Quero aterrar em segurança, e ter a certeza de que o voo tenha sempre o mesmo destino”.

Quarta-feira, 28 de Março de 2012

Segunda-feira, 26 de Março de 2012

Mms

Portishead - Roads from Cihan Özvez on Vimeo.

Mini. Singstar. Pizza. Cadeiras. Timeout. Sheraton. Piano. Abba. Voz cibernética. A casa nova. A lua. Uma tarde. Uma noite. Quase nenhum ontem.

Sexta-feira, 23 de Março de 2012

Sexta-feira, 16 de Março de 2012

Ram #1

técnica: digital
estado: meditativo