Todas as histórias têm um início, pensa o
escritor. Terão mesmo, afinal? Supomos da vida uma plataforma oscilante, que
nos testa o equilíbrio a todos os momentos; engalanados de fatos acrobáticos a condizer
com a destreza necessária para se enfrentar a eminência de queda. Tantas foram
as vezes que o escritor se imaginou a cair desse estrado, do alto dos céus
carregados, plúmbeos de uma chuva permanente. E essa queda assemelha-se à dos
sonhos, terminando num sobressalto final que nos acorda. Respiramos fundo e
viramo-nos para o lado. Uma noite o escritor ao virar-se encontrou Sue. (Como
podem constatar, esta história não teve início). Perplexo, questionou-se onde
estava. Que quarto de janelas abertas sobre a cidade seria aquele, que corpo
respirava a seu lado? Sue aninhava-se nele. O braço do escritor sob o seu
pescoço a servir-lhe de almofada, as pernas de ambos entrecruzadas numa mistura
de calor. Sue falava-lhe docemente. Dizia-lhe frases correctas, prontas a serem
lidas em qualquer romance, aprimoradas, sempre num tom de confidência. O
escritor olhava o tecto iluminado pela pouca luz da noite que entrava pelas janelas,
enquanto a escutava em silêncio. É possível que tenha sorriso, soltado até uma
lagrima de uma remota felicidade. Ouvir Sue era como se falasse ele mesmo a
ela. Ouvia-a atentamente e concluía que podia ser ele a dizer-lhe tudo aquilo;
uma intensa mensagem de entrega, efeitos de carência, assumires de paixão,
receios de quem já se projecta no futuro. O escritor pensou que nunca se sabe
quando se entra numa nova fase da vida. Ainda ontem parecia entregue a uma
solidão que lhe ditava um futuro imutável, e hoje consente que o seu respirar
adquira a inconstância dos adolescentes. Explorara em si a magia das várias
vidas dentro de uma, e tudo parecia repetir-se, não fossem as palavras de Sue a
alertá-lo de que algo era diferente. E Sue? Quem é Sue? Uma personagem
enigmática de um romance que escrevera há alguns anos? Ou a mulher de carne e
osso que o acariciava e lhe dizia baixinho «tenho saudades do nosso futuro»? O
escritor deixou de pensar para melhor sentir. Deixou de ser escritor, de
escrever para dentro, para se tornar homem. Um homem é finalmente alguém
repleto de erros. Não mais fatos acrobáticos, não mais máscaras simuladoras,
não mais escrever o que ainda não se viveu. Desistiu de si por momentos. Há
quanto tempo não o fazia? O abandono e a certeza de se estar entregue a algo
inquestionavelmente mais forte do que ele? Deixou-se levar. Adormeceu por fim
agarrado ainda mais a Sue. Uma mulher que surgira de uma história sem início. E
escavou. E foi ao fundo. E por fim, antes de adormecer, deixou-se viver. Não
contam os dias, efémeros, enganosos, para o tanto que se pode experienciar com
alguém. Recorda como itens diversos episódios que lhe abanam os ombros como se
gritassem «Isto não é um sonho! Isto és tu a viver.» O olhar preso no seu rosto
enquanto ela conduz pelas ruas da cidade. Patrick Watson a tocar no escuro da
garagem, cujas luzes acabariam por se apagar de tão longos os beijos.
Elevadores que sobem e descem até ao sétimo andar do prédio, para as mãos se
saciarem um pouco mais. Comidas rápidas dentro do Cooper de Sue. «Tens de
mandar limpar este carro. É uma pena um carro tão bonito estar assim…»
pedia-lhe o escritor, obtendo a difusa resposta «Quando as obras acabarem,
amor». Que obras, perguntava-se em silêncio o escritor? As da casa nova? As
obras interiores de Sue? As escavações de ambos na edificação de um futuro à
prova dos sismos amorosos? Nunca imunes ao lixo, pensou. Mas logo a vaga mágica
de esquecimento lhe toldava as dúvidas com novos episódios. Escolher cadeiras
retro para a nova sala, numa mezzanine onde ninguém os via, e onde se beijaram
de novo. Urgência. Toda a urgência batida nos poemas vigorava neles como uma
sentença: “Não troces de quem deseja.” Se uma história sem início se insurge
tão profícua de acontecimentos, para quê forçar-lhe um final? O escritor volta
a recordar a plataforma balouçante da vida, olha para baixo para medir a
distância de queda, mas desta vez não se encontra num sonho nem sequer sozinho.
Sue agarra-lhe uma mão e pergunta: «Quantas luzes de presença achas que devo
colocar neste chão?» O escritor queria responder-lhe nenhuma, associando o
corredor a uma pista de aterragem nocturna. Mas depois reflectiu melhor e
acabou por dizer: «Todas as que conseguires. Quero aterrar em segurança, e ter
a certeza de que o voo tenha sempre o mesmo destino”.